Não é só a porque no seu primeiro governo bateu recorde de desmatamento e em seu governo atual a Amazonia tá pegando fogo, recordes de desmatamento na caatinga e no serrado e mortes equiparadas à genocídio dos yanomamis. Há um fenômeno curioso no mercado das virtudes ambientais no qual Lula se encaixa ainda mais: quanto mais verde o discurso, mais conveniente parece ser o verde — desde que a conta não seja paga por quem discursa.
O presidente Lula oferece um exemplo recente dessa equação. De um lado, o discurso ambiental, a defesa da transição energética e os compromissos climáticos. De outro, a defesa da pesquisa de novas reservas de petróleo, inclusive na região da Foz do Amazonas. Em agosto, Lula defendeu a pesquisa de petróleo na região e associou a exploração de novas reservas à geração de riqueza para o país.
A contradição, portanto, não está necessariamente em defender simultaneamente proteção ambiental e produção de energia. Está no debate sobre até onde pode ir cada uma dessas agendas — e quem paga a conta quando elas entram em conflito.
O verde também gosta de luxo
E há outro detalhe que costuma desaparecer quando começa o discurso sobre austeridade, desigualdade e consumo: o padrão de vida de quem ocupa o topo da pirâmide política.
No caso de Lula, há registros públicos de bens e despesas associados ao exercício da Presidência que alimentam esse debate. Entre eles está o conhecido relógio Cartier de ouro recebido pelo presidente, cuja natureza e tratamento jurídico como presente presidencial foram objeto de discussão pública. Também há despesas oficiais de viagens e a estrutura de serviços da Presidência, cujos dados podem ser consultados no Portal da Transparência. (Folha de S.Paulo)
Nada disso, isoladamente, prova qualquer irregularidade. Mas levanta uma questão legítima: quando se defende que a sociedade consuma menos, produza menos ou aceite custos maiores em nome de determinadas políticas ambientais, é razoável perguntar se o mesmo padrão de contenção vale para quem formula essas políticas.
Janja e o capitalismo do bom gosto
Com Janja, a discussão passa também pelo custo da representação institucional. Em fevereiro de 2025, a Presidência pagou pelo menos R$ 24 mil em diárias para quatro assessores que a acompanharam em viagem oficial a Roma, valor que não incluía passagens e hospedagem. Em outra ocasião, em Nova York, a primeira-dama foi fotografada visitando lojas e, durante a Assembleia-Geral da ONU, comprou para Lula um cinto e duas meias por US$ 138, cerca de R$ 735 à época. (Folha de S.Paulo)
Também é importante registrar o outro lado: Janja afirmou publicamente que costuma cuidar pessoalmente de sua roupa e cabelo em viagens. Ou seja, nem toda despesa ou episódio envolvendo a primeira-dama pode ser automaticamente classificado como luxo pessoal ou gasto público. (Folha de S.Paulo)
A pergunta do Verde Dólar é outra: quando sustentabilidade significa cobrar mudanças de comportamento de milhões de brasileiros, como compatibilizar essa cobrança com uma rotina institucional marcada por viagens internacionais, equipes, segurança e consumo?
Lulinha e o patrimônio privado
No caso de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, a discussão é ainda mais diretamente empresarial. Dados bancários enviados à CPMI do INSS e divulgados pela imprensa apontaram movimentação de R$ 19,5 milhões em quatro anos, entre entradas e saídas de quatro contas. A defesa afirmou que os recursos têm origem legal e declarada, inclusive em empresas das quais ele é proprietário. (Folha de S.Paulo)
Mais recentemente, reportagem da Folha informou que Lulinha reside com a família em um condomínio de alto padrão na região de Madri, onde imóveis semelhantes podem ter aluguel de até € 5.500 mensais. A defesa contestou a caracterização de luxo e afirmou que ele mantém seu padrão de vida exclusivamente com seus rendimentos. (Folha de S.Paulo)
Há ainda investigações da Polícia Federal envolvendo Lulinha, com suspeitas que ele e seus advogados contestam. Essas apurações não equivalem a condenação nem permitem concluir, por si só, que seus recursos sejam ilícitos. (Folha de S.Paulo)
E talvez esteja aí a verdadeira pergunta do Verde Dólar: sustentabilidade é compatível com riqueza? Evidentemente, sim. O problema começa quando o enriquecimento privado é tratado como virtude para uns e o desenvolvimento econômico é tratado como pecado para outros.
Preservar o meio ambiente não exige demonizar o capitalismo. Desenvolvimento econômico não exige destruir o ambiente.
O desafio — muito mais difícil que fazer discurso — é conciliar os dois.
Porque, no fim das contas, até o verde tem preço.
E, quando o preço aparece, a conta precisa ser transparente para todos.
A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.