VERDE DÓLAR
O luxo das penas — e o preço que o avestruz paga
Há quem compre uma peça de luxo para desfilar sustentabilidade, responsabilidade ambiental e consciência social. O problema é quando, por trás do glamour, existe um avestruz que não foi convidado para o desfile.
Uma investigação divulgada neste mês pela World Animal Protection, em parceria com a Collective Fashion Justice, denunciou práticas de retirada de penas de avestruzes vivas em fazendas da África do Sul. Segundo as entidades, algumas aves são imobilizadas e têm as penas cortadas ou arrancadas, inclusive com relatos de utilização de alicates para retirar o que permanece preso à pele. (RTP África)
E aqui começa a ironia da chamada moda consciente: a pena, leve e sofisticada na passarela, pode carregar uma história bem mais pesada fora dela.
A África do Sul responde por aproximadamente 75% do mercado mundial de avestruzes. Segundo a investigação divulgada pelas organizações, fazendas e processadoras do país integram cadeias que abastecem grandes grifes internacionais, entre elas Chanel, Dior, Louis Vuitton e Yves Saint Laurent, além de empresas de moda de outros segmentos. (Rondônia Real)
Não se trata de condenar uma marca específica com base apenas em uma denúncia. Trata-se de fazer a pergunta que o marketing verde muitas vezes prefere deixar fora da vitrine: de onde veio aquilo que estou comprando?
Porque sustentabilidade não pode ser apenas embalagem reciclável, campanha com folhas verdes, desfile em cenário natural e discurso sobre responsabilidade. Sustentabilidade começa na origem da cadeia produtiva — e inclui o tratamento dado aos animais, aos trabalhadores e aos recursos naturais.
O curioso é que, enquanto consumidores são estimulados a perguntar se a embalagem é reciclável, se a bolsa tem “pegada de carbono” menor ou se a empresa plantou árvores, ainda existem cadeias produtivas nas quais a pergunta mais básica permanece: qual foi o custo real desse produto?
No caso das penas de avestruz, a investigação batizada de “Blood Feathers” — “Penas de Sangue” — sustenta que até métodos apresentados como alternativa à retirada direta das penas podem envolver sofrimento. (Collective Fashion Justice)
No mundo do Verde Dólar, talvez esteja na hora de atualizar a etiqueta.
Não basta dizer que é luxo.
Não basta dizer que é moda.
Não basta dizer que é sustentável.
Se a sustentabilidade termina na vitrine e começa o sofrimento na cadeia produtiva, não é sustentabilidade. É apenas marketing verde — com penas, grife e muito dólar.
Anitilda Dicabra
Filósofa cinza
A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.