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Coluna Verde Dólar Coluna verde dólar

Moda verde dólar

Por Anitilda Dicabra, filósofa cinza

04/10/2026 00h01
Por: Redação
Moda verde dólar

VERDE DÓLAR

O luxo das penas — e o preço que o avestruz paga

Há quem compre uma peça de luxo para desfilar sustentabilidade, responsabilidade ambiental e consciência social. O problema é quando, por trás do glamour, existe um avestruz que não foi convidado para o desfile.

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Uma investigação divulgada neste mês pela World Animal Protection, em parceria com a Collective Fashion Justice, denunciou práticas de retirada de penas de avestruzes vivas em fazendas da África do Sul. Segundo as entidades, algumas aves são imobilizadas e têm as penas cortadas ou arrancadas, inclusive com relatos de utilização de alicates para retirar o que permanece preso à pele. (RTP África)

E aqui começa a ironia da chamada moda consciente: a pena, leve e sofisticada na passarela, pode carregar uma história bem mais pesada fora dela.

A África do Sul responde por aproximadamente 75% do mercado mundial de avestruzes. Segundo a investigação divulgada pelas organizações, fazendas e processadoras do país integram cadeias que abastecem grandes grifes internacionais, entre elas Chanel, Dior, Louis Vuitton e Yves Saint Laurent, além de empresas de moda de outros segmentos. (Rondônia Real)

Não se trata de condenar uma marca específica com base apenas em uma denúncia. Trata-se de fazer a pergunta que o marketing verde muitas vezes prefere deixar fora da vitrine: de onde veio aquilo que estou comprando?

Porque sustentabilidade não pode ser apenas embalagem reciclável, campanha com folhas verdes, desfile em cenário natural e discurso sobre responsabilidade. Sustentabilidade começa na origem da cadeia produtiva — e inclui o tratamento dado aos animais, aos trabalhadores e aos recursos naturais.

O curioso é que, enquanto consumidores são estimulados a perguntar se a embalagem é reciclável, se a bolsa tem “pegada de carbono” menor ou se a empresa plantou árvores, ainda existem cadeias produtivas nas quais a pergunta mais básica permanece: qual foi o custo real desse produto?

No caso das penas de avestruz, a investigação batizada de “Blood Feathers” — “Penas de Sangue” — sustenta que até métodos apresentados como alternativa à retirada direta das penas podem envolver sofrimento. (Collective Fashion Justice)

No mundo do Verde Dólar, talvez esteja na hora de atualizar a etiqueta.

Não basta dizer que é luxo.

Não basta dizer que é moda.

Não basta dizer que é sustentável.

Se a sustentabilidade termina na vitrine e começa o sofrimento na cadeia produtiva, não é sustentabilidade. É apenas marketing verde — com penas, grife e muito dólar.

 

Anitilda Dicabra
Filósofa cinza

A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.

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