Chamar adversário de fascista virou atalho no debate brasileiro. Poupa o esforço de argumentar e transforma divergência política em questão moral. Aplicado a Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno à frente com mais de 56 milhões de votos, o rótulo não resiste a um exame sério, nem histórico, nem jurídico, nem acadêmico.
Fascismo não é sinônimo de conservadorismo, nem de direita, nem de discurso duro. É um fenômeno histórico definido: partido único, milícias armadas a serviço do movimento, violência política como método, corporativismo estatal, supressão de eleições, parlamento e imprensa livre. Mussolini fechou o parlamento, dissolveu partidos e mandou seus esquadrões espancar opositores. Nada disso guarda qualquer semelhança com a trajetória de Flávio.
Flávio foi deputado estadual e é senador desde 2019. Construiu carreira dentro das instituições: aprovando projetos, negociando com partidos de centro, compondo maiorias. É reconhecido, inclusive por adversários, como o integrante mais moderado e pragmático da família. Disputa eleições, reconhece resultados e agora pede votos para um segundo turno. Quem quer abolir a democracia não se submete pela terceira vez seguida ao voto popular.
O fascismo foi, em essência, estatista: o Estado acima de tudo, a economia subordinada ao poder político por meio das corporações. A plataforma de Flávio vai na direção contrária: enxugamento de ministérios, redução do tamanho do Estado, liberdade econômica. Ele também afirmou que, se eleito, não disputará a reeleição, compromisso que contraria a lógica de perpetuação no poder característica de regimes autoritários.
Os principais estudiosos do tema, como Cas Mudde e Steven Levitsky, classificam fenômenos como o bolsonarismo em outras categorias, como direita populista ou radical. Não é por acaso: usar "fascismo" para tudo esvazia a palavra justamente quando ela seria necessária. A banalização do termo é, em si, uma ofensa às vítimas reais do fascismo histórico.
Quase metade do eleitorado votou em Flávio. Chamar o candidato de fascista é, por extensão, insinuar que dezenas de milhões de brasileiros apoiam um projeto totalitário. Isso não é crítica política; é desqualificação do eleitor. A democracia se fortalece quando se debatem propostas para economia, segurança, saúde e educação, não quando se interdita o adversário com adjetivos.
Discorde-se de Flávio Bolsonaro o quanto se quiser. Mas que se discorde com argumentos. Ele não é fascista — e insistir nisso é que é fascismo, gramiscismo, nazicomunismo e empobrece a democracia.
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