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Sessenta anos depois da cruz: o “testemunho” de Josefo sobre Jesus volta ao centro do debate

Escrito em Roma por volta de 93 d.C., trecho das Antiguidades Judaicas é a mais antiga descrição de Jesus por um autor não cristão. Novo livro da Oxford University Press defende que o parágrafo é integralmente autêntico; a maioria dos especialistas ainda enxerga acréscimos de copistas cristãos

31/10/2026 22h17 Atualizada há 5 dias atrás
Por: Redação
Manuscrito grego medieval com o Testimonium Flavianum; o cabeçalho anuncia “do décimo oitavo livro da Arqueologia Judaica — sobre o Cristo, testemunho”. (Reprodução)
Manuscrito grego medieval com o Testimonium Flavianum; o cabeçalho anuncia “do décimo oitavo livro da Arqueologia Judaica — sobre o Cristo, testemunho”. (Reprodução)

Por volta do ano 93 d.C., um historiador judeu que vivia sob a proteção da corte imperial romana interrompeu o relato dos tumultos da Judeia sob Pôncio Pilatos para registrar, em 89 palavras gregas, a vida e a morte de "um homem sábio" chamado Jesus. O trecho, conhecido como Testimonium Flavianum — "o testemunho de Flávio" —, foi escrito cerca de seis décadas após a crucificação, situada pelos historiadores entre os anos 30 e 33. É, até hoje, a mais antiga descrição de Jesus de Nazaré fora dos textos cristãos. E é também um dos parágrafos mais disputados de toda a literatura antiga.

A disputa acaba de ganhar um novo capítulo. Em "Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ" (Oxford University Press, 2025), o pesquisador Thomas C. Schmidt sustenta que o parágrafo é inteiramente de Josefo — tese que contraria o entendimento dominante desde o fim do século XX, segundo o qual o texto tem um núcleo autêntico retocado por mãos cristãs. Resenhas publicadas em 2026 já descrevem o livro como capaz de "reabrir, e provavelmente derrubar" o quase consenso acadêmico; outros especialistas, no mesmo ano, seguem classificando o trecho como o mais suspeito de interpolação em toda a obra do historiador.

QUEM FOI JOSEFO

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Yosef ben Matityahu nasceu em Jerusalém em 37 d.C. — poucos anos depois da morte de Jesus — em uma família da aristocracia sacerdotal. Durante a revolta judaica contra Roma (66–70), comandou as forças rebeldes na Galileia, foi capturado e passou para o lado do general Vespasiano. Quando este se tornou imperador, Josefo mudou-se para Roma, adotou o nome da dinastia Flávia e dedicou o resto da vida a escrever a história de seu povo para o público greco-romano.

As Antiguidades Judaicas, obra em vinte livros concluída por volta de 93–94 d.C., percorrem a história dos judeus desde a Criação até as vésperas da guerra. O trecho sobre Jesus aparece no Livro XVIII (parágrafos 63–64), encaixado entre dois episódios de conflito entre Pilatos e a população de Jerusalém e um escândalo ocorrido em Roma. Uma segunda menção, no Livro XX, registra a execução de "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo", no ano 62 — e esta é aceita como autêntica pela quase totalidade dos estudiosos.

O QUE DIZ O TEXTO

"Por esse tempo surgiu Jesus, homem sábio, se é que se deve chamá-lo de homem. Pois era realizador de feitos extraordinários, mestre de homens que recebem a verdade com prazer, e atraiu a si muitos judeus e também muitos do mundo grego. Ele era o Cristo. E quando Pilatos, por denúncia dos principais dentre nós, o condenou à cruz, os que desde o início o haviam amado não deixaram de fazê-lo, pois ele lhes apareceu vivo de novo ao terceiro dia, tendo os divinos profetas anunciado estas e outras dez mil maravilhas a seu respeito. E até hoje não desapareceu a tribo dos cristãos, assim chamada por causa dele."

(Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XVIII, 63–64. Tradução livre a partir do texto grego.)

O MANUSCRITO

A imagem que acompanha esta reportagem mostra o trecho em um manuscrito grego medieval. O cabeçalho, em escrita minúscula bizantina, anuncia o conteúdo: "Do décimo oitavo livro da Arqueologia Judaica — sobre o Cristo, testemunho" (Ioudaïkḗ archaiología é o título grego original da obra). A rubrica indica que o parágrafo circulava também isolado, copiado como peça de prova em coletâneas de textos.

Nenhum manuscrito de Josefo anterior ao século XI sobreviveu. O mais antigo exemplar grego que contém o Testimonium é o Ambrosianus 370 (F 128), guardado na Biblioteca Ambrosiana de Milão — cerca de mil anos depois da redação original. Todos os exemplares conhecidos foram copiados por monges cristãos; a tradição judaica, que via em Josefo um traidor, não preservou sua obra. É nesse intervalo de dez séculos, sem testemunhos diretos, que se instala a dúvida.

O DEBATE, EM TRÊS POSIÇÕES

Interpolação total. Os céticos partem de um silêncio. Orígenes, teólogo cristão que escreveu por volta de 248 d.C. e conhecia bem a obra de Josefo, afirmou duas vezes que o historiador "não acreditava que Jesus fosse o Cristo" — afirmação difícil de conciliar com um texto que diz, literalmente, "Ele era o Cristo". Nenhum autor cristão dos três primeiros séculos cita o parágrafo, apesar de seu óbvio valor apologético. A primeira citação conhecida é de Eusébio de Cesareia, no início do século IV. Para o pesquisador Ken Olson, que defende a tese desde 1999, vocabulário e conteúdo do trecho se aproximam mais do estilo de Eusébio do que do de Josefo; em artigo de 2024, Chrissy Hansen sustentou que todas as versões conhecidas do texto derivam, em última análise, das obras de Eusébio.

Autenticidade parcial — a posição majoritária. A maioria dos especialistas, porém, enxerga no trecho um núcleo genuíno de Josefo — a descrição de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos extraordinários", a condenação por Pilatos "por denúncia dos principais dentre nós", a sobrevivência da "tribo dos cristãos" — ao qual copistas teriam acrescentado três frases de fé: "se é que se deve chamá-lo de homem", "Ele era o Cristo" e a aparição "vivo, ao terceiro dia". A palavra "tribo", levemente depreciativa, e a referência aos líderes judeus como "nós" soam como Josefo, não como um cristão. Um levantamento clássico de Louis Feldman, o maior especialista em Josefo do século XX, contou 52 estudiosos que se pronunciaram entre 1937 e 1980: apenas 13 consideravam o parágrafo inteiramente forjado; 35 aceitavam um núcleo autêntico com interpolações; 4 o tinham por integralmente genuíno.

Reforçam essa leitura uma versão árabe do século X, preservada na crônica de Agápio de Hierápolis e divulgada em 1971 pelo orientalista Shlomo Pines, em que a frase sobre o Cristo aparece de forma bem mais contida, e a menção a Tiago no Livro XX, que pressupõe uma apresentação anterior de Jesus ao leitor. Críticos, contudo, observam que a versão árabe pode depender da tradução siríaca de Eusébio — e não de um exemplar independente de Josefo.

Autenticidade integral — a nova tese. Schmidt vai além. Consultando manuscritos em grego, latim, siríaco, armênio e árabe, ele sustenta que os cristãos antigos liam o Testimonium como um relato banal, até vagamente negativo — e não como a profissão de fé que os leitores modernos nele enxergam —, o que apontaria para um autor não cristão. Uma análise estilométrica, afirma, mostra que o trecho se ajusta ao estilo de Josefo. O livro reconstrói ainda a rede de relações do historiador em Jerusalém e em Roma para sugerir que ele pode ter tido acesso direto a pessoas que conheceram Jesus — afinal, cresceu na elite sacerdotal que, segundo o próprio texto, denunciou o nazareno a Pilatos.

SESSENTA ANOS: LONGE OU PERTO?

Seis décadas separam a crucificação (c. 30–33) da conclusão das Antiguidades (93–94) — a mesma distância que separa 2026 de 1966. Josefo nasceu em 37, cresceu em Jerusalém e pertencia à aristocracia sacerdotal: a geração de seus pais e mestres foi contemporânea dos fatos. Para os defensores da autenticidade, isso faz dele uma testemunha de segunda mão, não um compilador de boatos. Para os céticos, o problema não é a distância de Josefo até Jesus, mas a de Josefo até o manuscrito mais antigo: mil anos de cópias feitas exclusivamente por mãos cristãs.

POR QUE IMPORTA

O Testimonium não é a única fonte não cristã sobre Jesus. Tácito, nos Anais (c. 116 d.C.), registra que "Christus" foi executado sob Tibério por Pôncio Pilatos; Plínio, o Jovem (c. 112), descreve o culto dos cristãos da Bitínia; Suetônio (c. 121) menciona tumultos em Roma instigados por um certo "Chrestus". Nenhum deles, porém, escreveu tão cedo, nem tão perto — geográfica e socialmente — dos acontecimentos quanto Josefo.

Por isso o que está em jogo não é a existência histórica de Jesus, que a quase totalidade dos historiadores — inclusive os céticos quanto ao Testimonium — considera estabelecida, mas a qualidade da prova: o que exatamente um judeu bem informado, sem compromisso com a nova fé, julgou digno de registro sessenta anos depois. Se Schmidt estiver certo, a resposta é: muito mais do que se supunha.

Enquanto a controvérsia prossegue — ela já dura mais de quatro séculos —, o parágrafo segue onde está há pelo menos mil anos: em todos os manuscritos gregos conhecidos das Antiguidades.

PARA SABER MAIS

◆ T. C. Schmidt, Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ (Oxford University Press, 2025).
◆ Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XVIII, 63–64 (o Testimonium) e XX, 200 (Tiago, irmão de Jesus).
◆ Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, I, 11 — a primeira citação conhecida do trecho.
◆ Orígenes, Contra Celso, I, 47.
◆ John P. Meier, Um Judeu Marginal, vol. 1 (Imago).
◆ Louis H. Feldman e Gōhei Hata (orgs.), Josephus, Judaism and Christianity (Brill, 1987).
◆ Chrissy M. E. Hansen, "Reception of the Testimonium Flavianum", New England Classical Journal 51.2 (2024).
◆ Rivka Nir, in The Oxford Handbook of Josephus (OUP, 2026).

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