Análise | Política climática internacional
Um post recente do pesquisador Gustavo Spadotti, Chefe-Geral da Embrapa Territorial, viralizou no LinkedIn ao colocar o dedo numa ferida que poucos ousam tocar no debate climático: a hipocrisia estrutural do sistema internacional, que cobra rigorosamente de quem produz, preserva e reduz, enquanto poupa quem mais polui. E o gráfico que ele compartilhou — produzido pela Visual Capitalist a partir de dados do Global Carbon Budget e do Our World in Data — não deixa espaço para narrativas convenientes.
Os números falam mais alto que a retórica
Entre 2014 e 2024, enquanto o discurso oficial das COPs e dos relatórios internacionais apontava o dedo para o “desmatamento brasileiro” e a “pecuária da Amazônia”, a realidade emissora do planeta caminhava em direção oposta:
• Vietnã: +106,0% (de 180 Mt para 371 Mt de CO₂)
• Indonésia: +63,1% (de 498 Mt para 812 Mt)
• Índia: +48,7% (de 2,1 Gt para 3,2 Gt)
• Turquia: +39,7%
• China: +23,2% (de 10 Gt para 12,3 Gt — sozinha, mais que EUA, Europa e Brasil somados)
Do outro lado, o “clube dos cobradores”:
• Reino Unido: -28,7%
• Alemanha: -27,8%
• Japão: -23,7%
• Itália: -13,6%
• Brasil: -13,2%
Sim, o Brasil — tratado no circuito diplomático como vilão recorrente — reduziu suas emissões industriais e de combustíveis fósseis em proporção semelhante à da Itália e superior à dos Estados Unidos (-11,3%). E mais: fez isso com uma matriz energética que já é uma das mais limpas do mundo, com mais de 80% de geração elétrica de fontes renováveis.
O ponto cego da diplomacia climática
A leitura de Spadotti é cirúrgica: a meta climática global recai sobre quem já faz, não sobre quem mais emite. Quando UK, Alemanha e Japão “reduzem emissões”, parte relevante do feito decorre simplesmente da transferência de parques industriais para a Ásia — ou seja, terceirizam a poluição, mantêm o padrão de consumo e ainda colhem o capital reputacional da “transição verde”.
A China não dobrou suas emissões por acidente. Construiu, no período, mais de uma usina a carvão por semana, em média. A Índia segue rota parecida. Vietnã e Indonésia se tornaram polos industriais aproveitando justamente o vácuo deixado pelo encolhimento manufatureiro europeu. E o resultado líquido para a atmosfera é negativo: China e Índia juntas adicionaram mais de 3,4 bilhões de toneladas de CO₂ por ano ao planeta na última década — mais do que tudo o que UK, Alemanha, Itália e Japão emitem somados hoje.
E para esses países, o regime internacional reserva tratamento de “economias em desenvolvimento”, com prazos elásticos, transferências de tecnologia e financiamento climático.
O Brasil como réu permanente
Enquanto isso, o Brasil:
1. Reduziu emissões no setor energético-industrial em 13,2%.
2. Mantém uma matriz elétrica entre as mais limpas do G20.
3. Preserva o maior estoque de floresta tropical do mundo, prestando serviço ecossistêmico não remunerado à humanidade.
4. Produz alimento, fibra e energia com uma das menores pegadas de carbono por unidade produzida do planeta — a pecuária brasileira em sistemas integrados, por exemplo, sequestra mais carbono do que emite em muitas propriedades.
Mesmo assim, é o Brasil que recebe pressão para travar a conversão legal de terras, abrir mão de competitividade agropecuária e aceitar moratórias de mercado que, na prática, funcionam como barreiras não-tarifárias travestidas de ambientalismo. Como observa Spadotti, as metas “recaem sobre quem já faz, produz e preserva” — caso único no mundo —, “porém poupam quem mais polui”.
Política industrial com batom verde
A consequência política dessa assimetria é o que o pesquisador identifica com precisão: o discurso climático deixou de ser política ambiental e virou política industrial com outro nome. Quando recursos, normas e pressões diplomáticas se concentram justamente nos países que não são o problema — e ignoram aqueles que respondem pela maior parte do crescimento de emissões —, o efeito sobre o clima é nulo. O efeito sobre a competição comercial, contudo, é enorme.
Não por acaso, regulações como o CBAM europeu (mecanismo de ajuste de carbono na fronteira) e a EUDR (lei antidesmatamento da UE) miram com precisão milimétrica produtos em que o Brasil é competitivo — soja, carne, café, celulose — enquanto deixam intactas cadeias chinesas e indianas que pouco se incomodam em comprovar rastreabilidade ambiental.
O que está em jogo
Quando o recurso climático “não vai para onde o problema está”, como diz Spadotti, ele não resolve o clima — resolve a competição. E a conta, ao final, é paga por agricultores, pecuaristas, trabalhadores rurais e consumidores brasileiros, num país que já fez mais pela sustentabilidade global do que qualquer outra grande economia tropical.
A reflexão final do pesquisador merece ser repetida em voz alta nos próximos fóruns internacionais — e especialmente em Belém, na COP30: “Temos que entender o quanto já fazemos pela sustentabilidade para não abrir mão de nossa já decrescente competitividade.”
Não se trata de negar a urgência climática. Trata-se de exigir que ela seja honesta — e que cobre, de fato, de quem precisa cobrar.