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O Brasil precisa coordenar políticas e vocações regionais para converter a transição energética em vantagem competitiva, aponta estudo do FGV Clima

O estudo mostra que a heterogeneidade territorial brasileira pode ser estratégica para a competitividade do país na transição energética, desde que políticas públicas, financiamento e planejamento atuem de forma coordenada.

05/06/2026 12h43
Por: Redação
O Brasil precisa coordenar políticas e vocações regionais para converter a transição energética em vantagem competitiva, aponta estudo do FGV Clima


 

São Paulo, 5 de junho de 2026 – A transição energética brasileira não ocorrerá de forma homogênea entre as regiões, e essa característica não deve ser vista como uma limitação, e sim, como uma das maiores vantagens competitivas do país. A diversidade territorial brasileira reúne diferentes vocações energéticas, produtivas e institucionais, que vão da abundância hídrica e da bioeconomia no Norte à expansão solar e eólica no Nordeste, passando pela bioenergia no Centro-Oeste, pela descarbonização industrial no Sudeste e pelo potencial agroindustrial e de biomassa no Sul. É o que conclui o segundo estudo da série “Desenhando o Futuro da Transição Energética Brasileira”, publicado pelo FGV Clima, com apoio do Instituto Itaúsa. O relatório “As Políticas Públicas de Transição Energética no Brasil” mostra que a heterogeneidade regional, muitas vezes tratada como obstáculo à coordenação, deve ser reconhecida como base para uma estratégia nacional mais inteligente: capaz de combinar instrumentos comuns com soluções adaptadas às vocações de cada território.
 

Com uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, o Brasil parte de uma posição privilegiada na transição energética. Em 2024, 84,5% da capacidade instalada de geração elétrica do país já vinha de fontes renováveis, com destaque para as fontes hídrica, eólica, da biomassa e solar (EPE, 2025). Esse perfil diferencia o Brasil do cenário global, onde o setor de energia respondeu por 69% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 2024 (UNEP, 2025). No caso brasileiro, a participação do setor energético é menor, cerca de 19,8% das emissões de GEE, enquanto a mudança do uso da terra segue como principal fonte emissora, com 73,74% do total. O desafio, portanto, não se limita à manutenção de uma matriz elétrica renovável. A próxima etapa da transição energética brasileira exige reduzir as emissões nos usos finais da energia, especialmente nos transportes, responsáveis por 53,27% das emissões energéticas, e na indústria, com 16,19% (SEEG, 2026).
 

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Para a coordenadora do FGV Clima e do estudo, professora Amanda Schutze, o Brasil precisa consolidar uma transição que seja simultaneamente sustentável, justa, inclusiva e economicamente eficiente, adicionando a essa equação as diferenças regionais que sustentam a alta renovabilidade da matriz energética do país.
 

“A transição energética brasileira não começa do zero. Ao longo das últimas décadas, o país construiu um arcabouço estruturado de políticas, planos e programas que, mesmo concebidos em contextos distintos, deram à matriz brasileira uma das composições mais limpas do mundo. O desafio agora é criar um modelo nacional capaz de acomodar trajetórias territoriais distintas sem perder coerência estratégica”, afirma a pesquisadora.
 

Cinco vocações, uma estratégia
 

O mapeamento estadual mostra que não há uma única transição energética em curso no Brasil. Cada região avança a partir de recursos, cadeias produtivas, infraestrutura e capacidades institucionais próprias, o que exige políticas e estratégias adaptadas às diferentes realidades do país.
 

Heterogeneidade da transição energética no Brasil

Vocação e desafios regionais.

 

 

No Norte, a abundância hídrica e o potencial da bioeconomia convivem com sistemas isolados, dificuldades logísticas e dependência de soluções fósseis em áreas remotas. No Nordeste, a produção de energia eólica e solar já transformou a região em protagonista da expansão renovável, mas esse avanço esbarra em gargalos de transmissão, armazenamento e industrialização local. No Centro-Oeste, a conexão entre energia e agronegócio abre espaço para bioenergia, biometano e biocombustíveis, ao mesmo tempo em que exige maior integração entre políticas energéticas e cadeias agroindustriais.
 

No Sudeste, onde se concentra o maior polo industrial e energético do país, o desafio é descarbonizar a indústria sem perder competitividade nem comprometer a segurança do suprimento. Já o Sul combina vocação agroindustrial, inovação e potencial em biomassa, mas ainda precisa enfrentar a permanência de fontes fósseis, especialmente o carvão, em parte da sua matriz.
 

A leitura conjunta dessa heterogeneidade mostra que políticas uniformes aplicadas a todo o território tendem a produzir resultados assimétricos ou subaproveitados. A diversidade de vocações do país demanda instrumentos sob medida, e é essa combinação única que torna a cesta de soluções do Brasil difícil de ser replicada em outras economias.
 

O que já existe, e o que ainda precisa amadurecer
 

O estudo mapeia o arcabouço de políticas, planos e programas que estruturam a transição energética brasileira. Em biocombustíveis, geração renovável e eficiência energética, o país conta com programas maduros, regras estabelecidas e décadas de aprendizado institucional.
 

Em outras frentes, como o hidrogênio de baixo carbono, a descarbonização industrial e o recém-criado Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a construção institucional ainda está em curso.
 

 


As iniciativas em andamento têm naturezas distintas: estratégias guarda-chuva, como a Nova Indústria Brasil e o Plano de Transformação Ecológica; planos de longo prazo, como a Estratégia Brasil 2050, a Política Nacional de Transição Energética e o Plano Clima; e programas com desenho consolidado, como o Procel e o Programa de Eficiência Energética da ANEEL. Reconhecer essas camadas é o que permite ler o avanço brasileiro na transição energética com a precisão que a agenda exige e desenhar instrumentos capazes de dialogar com as vocações regionais distintas.
 

O relatório completo está disponível no anexo anexo 1.docx

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