
Há personagens que começam como símbolo e terminam como caricatura de si mesmas.
Greta surgiu como a adolescente que desafiava chefes de Estado, cobrava coerência climática e lembrava ao mundo que o planeta não negocia com a física. Era uma mensagem poderosa.
O problema começa quando a coerência passa a ser seletiva.
A defensora da redução das emissões frequentemente aparece em deslocamentos internacionais cuja pegada de carbono se torna alvo de críticas públicas, enquanto suas viagens e ações geram debates sobre a distância entre o discurso e a prática. Não basta condenar aviões em conferências e, ao mesmo tempo, viver em uma agenda global que depende de constantes deslocamentos. A credibilidade ambiental exige que os exemplos acompanhem os discursos.
Também chama atenção a transformação de uma ativista climática em uma personagem cada vez mais envolvida em disputas geopolíticas. Suas manifestações sobre o conflito entre Israel e Hamas receberam críticas por serem vistas por muitos como desequilibradas ou insuficientemente claras na condenação dos ataques terroristas do Hamas. Quando a defesa de uma causa passa a ignorar a complexidade dos fatos, o ativismo corre o risco de ser percebido mais como militância ideológica do que como compromisso universal com os direitos humanos.
Nesse cenário, surge a impressão de uma nova categoria de celebridade global: a do “ambientalismo premium”. Um ativismo que rende manchetes, convites para fóruns internacionais, milhões de seguidores e enorme influência política, mas cuja coerência prática é constantemente questionada.
É o ambientalismo da fotografia perfeita, da hashtag certeira e da indignação cuidadosamente direcionada.
A floresta continua queimando, os oceanos continuam recebendo plástico e as emissões globais continuam aumentando. Mas a celebridade ambiental segue produzindo manchetes.
Talvez o novo combustível da militância contemporânea não seja o diesel, o bunker dos navios ou o querosene da aviação.
Seja a atenção.
Porque ela move mais do que qualquer motor.
E rende dividendos políticos muito superiores aos créditos de carbono.
No fim, fica a dúvida: o verde defendido é o das florestas ou o dos dólares que financiam a indústria da influência global?
Essa é uma pergunta que todo ativista — e toda sociedade — deveria responder antes de apontar o dedo para os outros.
A Coluna Verde Dólar é escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o sustentabilidade crítica, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.