COLUNA VERDE DÓLAR
O ativista que voa a querosene
Há quem defenda o mar sem nunca ter molhado o pé nele — e quem defenda o pescador sem nunca ter perdido uma safra. O curioso é o contracheque.
Ele não sobe em plataforma. Não pega helicóptero às cinco da manhã para um turno de quatorze por quatorze. Não sente o cheiro do óleo, não conhece o barulho do turbocompressor, não sabe o que é cumprir procedimento de segurança antes de descer para o convés. Mas fala em nome de quem faz tudo isso.
O personagem é conhecido: petroleiro de carteira, liberado de função, militante de fuso horário. Defende a comunidade quilombola pelo Instagram, o pescador artesanal por videoconferência, o oceano por hashtag. Entre uma pauta e outra, aparece um pôr do sol alugado, um evento em Brasília, uma foto de camisa aberta com legenda sobre modo de vida tradicional. Vive como se estivesse em férias permanentes dentro de um anúncio de operadora de turismo.
O detalhe está no rodapé. O salário, a diária, a passagem, o custeio da entidade — tudo isso nasce, direta ou indiretamente, do barril. Do mesmo barril que ele pede para deixar no subsolo. Do mesmo setor cujas participações governamentais financiam, entre tantas outras coisas, órgãos ambientais, unidades de conservação e programas sociais em municípios costeiros.
Enquanto isso, não paga pensão à filhinha, deve à escolinha e embolsa o auxílio creche.
Não se trata de hipocrisia, apenas. Trata-se de caráter.
E é aqui que o Verde Dólar entra. Porque essa figura não é um desvio moral individual, mas é um modelo econômico. Existe uma cadeia inteira de intermediação ambiental que vive do conflito, e não da solução: quanto mais litígio, mais audiência; quanto mais audiência, mais financiamento; quanto mais financiamento, menor o incentivo para que qualquer processo termine. A comunidade continua sem título definitivo. O pescador continua sem regularização da sua atividade. O influenciador continua com engajamento.
O que se vende como consciência é, muitas vezes, um arranjo de receita e uma falsa autoridade técnica, legal e moral.
Não há transição energética paga com o dinheiro de quem despreza a fonte do pagamento. O barril financia a ponte para o que vem depois — e quem atravessa a ponte cuspindo nela deveria, no mínimo, explicar quem vai pagar o pedágio.
O trabalhador embarcado, esse, já sabe. Ele está lá agora, no meio do mar, enquanto a pantera queima não só brasa fumegante, mas o meio ambiente e a classe trabalhadora que diz defender.
