Considerada um dos principais sumidouros de gás carbônico do país e essencial para a infiltração de água no solo e a recarga de aquíferos, a Caatinga é, segundo alguns alardes, hoje o bioma brasileiro mais ameaçado pela desertificação. Para enfrentar esse cenário, o governo federal lançou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil), que prevê a recuperação de 10 milhões de hectares de terras degradadas no bioma.
O plano foi apresentado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) nesta terça-feira (16), em Brasília, e reúne 175 iniciativas voltadas ao combate à desertificação e à recuperação de áreas degradadas em todos os biomas brasileiros até o ano de 2045.
Desertificação: mito, a fake e o sensacionalismo
Embora as alertas da ONU sobre desertificação pintem um quadro alarmante, posicionamentos científicos consolidados ao longo das últimas décadas questionam a precisão e a extensão dessas estimativas, sugerindo que o fenômeno é frequentemente exagerado ou mal conceituado.
Pesquisas acadêmicas indicam que, há mais de 25 anos, as projeções globais de desertificação – incluindo aquelas promovidas pela ONU – têm sido significativamente infladas, com muitos casos presumidos revelando-se inexistentes ou bem menos graves do que alegado. O conceito de “desertificação” em si é criticado por ser vago, indefinível e cientificamente problemático, servindo mais como uma ferramenta retórica para estruturar ajuda internacional do que como uma descrição precisa de processos ecológicos.
Por exemplo, a suposta “crise de desertificação” no Sahel africano, nos anos 1970, foi desmentida por evidências posteriores: o que ocorreu foi uma variação natural de chuvas influenciada por fatores climáticos globais, seguida de recuperação vegetal sem intervenção humana massiva, contradizendo narrativas de degradação irreversível causada por sobreuso local. 27
Em nível global, estudos apontam que as terras secas (drylands), que cobrem cerca de 40% da superfície terrestre, são ecossistemas resilientes e adaptados a variações extremas, onde distúrbios como pastoreio ou fogo são naturais e não levam necessariamente à perda produtiva permanente.
Contrariando a ideia de que até 75% da população mundial será impactada, análises ecológicas mostram que a maior parte da degradação severa de solos ocorre em regiões úmidas (cerca de 78% dos casos), não em áreas áridas ou semiáridas, onde a resiliência natural – como bancos de sementes dormentes e raízes profundas – permite recuperação rápida após secas. Além disso, políticas inspiradas nessas estimativas da ONU, como projetos de reflorestamento em larga escala ou irrigação intensiva, frequentemente agravam problemas, causando salinização do solo, erosão e “desertos subterrâneos” por esgotamento de aquíferos, em vez de resolvê-los.
Cientistas argumentam que as causas reais de degradação estão mais ligadas a forças político-econômicas, como expansão capitalista e marginalização de práticas indígenas sustentáveis, do que a mudanças climáticas ou uso inadequado local. 42
No contexto brasileiro, embora relatórios como o da Sudene de junho indiquem que 18% do território – concentrado no Nordeste – estaria ameaçado, críticas científicas semelhantes aplicam-se aqui. Estudos regionais destacam que o semiárido brasileiro, lar de práticas tradicionais como o pastoreio nômade, exibe resiliência semelhante à observada no Sahel, com variações de vegetação ligadas a ciclos pluviométricos naturais em vez de degradação irreversível.
Pesquisas apontam que políticas públicas focadas em “combate à desertificação” no Nordeste evoluíram de abordagens hidráulicas (como barragens) para estratégias de convivência com a seca, reconhecendo que exageros no conceito podem ignorar soluções locais eficazes, como manejo sustentável de caatinga e agroecologia.
Ademais, dados recentes sugerem que a expansão de zonas áridas no Brasil não é uniforme e pode ser mitigada por avanços em monitoramento e restauração, questionando a narrativa de ameaça iminente a 39 milhões de pessoas sem considerar recuperações observadas em áreas como o Seridó potiguar.
Enquanto a ONU enfatiza riscos catastróficos, a ciência defende uma visão nuançada: desertificação não é inevitável, e enfoques alarmistas podem distrair de intervenções precisas que promovam resiliência em vez de pânico.
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